segunda-feira, abril 10, 2006

Se eu pudesse...

Se eu pudesse livrar-me de toda a dor, mas jamais livrar-me do meu corpo, senão livrando-me, com ele, de mim mesmo. Sei que de um lado há um eu, que possui um corpo mas não se confunde com esse corpo, de outro lado há um corpo como meu corpo, que não corresponde exactamente a mim como eu gostaria; mas não saberia desfazer-me desse corpo que não sou inteiramente eu sem me desfazer de mim por inteiro. Há, assim, uma desproporção entre mim e meu corpo ao mesmo tempo em que há uma indissolubilidade entre nós dois. Por isso:

Cometeria suicídio

tranquilamente

se eu mesmo pudesse depois limpar a casa,

vestir o cadáver, atender as visitas,

consolar os íntimos,

ir ao enterro e voltar

sozinho e conciliado,

livre de mim

e pronto

para outra.

Mas não posso exterminar o meu corpo sem ir com ele. Sem também me extinguir. Restava-me pensar na imortalidade da minha alma, mas não o posso fazer porque nada sei de alma, nada sei da alma sem o meu corpo. Toda experiência que tenho da alma, tenho-a no horizonte do meu corpo: dor e gozo estão na alma, mas é o corpo quem sofre; é o corpo quem goza.

Assim gostaria de ter muitos corpos, para poder trocar de corpo como quem troca de roupa. Ou melhor, como quem troca de alma. Sim, pois na liberdade constitutiva da alma, posso ser e não ser infinitamente o que sou e venho a ser.

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