segunda-feira, junho 26, 2006

Amor

O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.

Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...


Fernando Pessoa

domingo, junho 25, 2006

Não chega

Por aqui fico
No teu olhar perco a força
Sem resistir e sem mudar
Por aqui fico
O tempo pára, mas logo foge
Estás tão perto e tão longe
Se me visses, um gesto não chega
Não, não chega!

Não me vês, não me ouves
Se ao menos se me amasses
Não me vês, não me ouves
Se ao menos se me amasses


Por aqui fico
Na tristeza, caminho só
Sem pensar no que aprendi
Por aqui fico
O tempo pára, mas logo foge
Estás tão perto e tão longe
Se me ouvisses, um grito não chega
Oh, não chega

Não me vês, não me ouves
Se ao menos se me amasses

Não me vês, não me ouves
Se ao menos se me amasses

Hands on Approach

quarta-feira, junho 14, 2006

Morrer... NÃO!


Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito, repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem não muda de marca, não arrisca vestir uma cor nova e não fala com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o escuro ao invés do claro e os pingos nos is a um redemoinho de emoções,
exactamente a que resgata o brilho nos olhos, o sorriso nos lábios e o coração aos tropeços.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto, para ir atrás de um sonho.
Morre lentamente quem não permite, pelo menos uma vez nas vida, ouvir conselhos sensatos.
Morre lentamente quem não viaja, não lê, quem não ouve música, quem não encontra graça em si mesmo.
Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente quem destrói o seu amor próprio, quem não se deixa ajudar.
Morre lentamente quem abandona um projecto antes de iniciá-lo, nunca pergunta sobre um assunto que desconhece e nem responde quando lhe perguntam sobre algo que sabe.
Evitemos a morte em suaves porções, recordando sempre que estar vivo exige
um esforço muito maior que o simples ar que respiramos.
Somente com infinita paciência conseguiremos a verdadeira felicidade.


Pablo Neruda

domingo, junho 04, 2006

Neste caso, perdido no mundo

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem sorte,
Sou a irmã do sonho, e desta sorte,
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber porquê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca
Posso sentir-me assim, conforta-nos
quando existe quem passe pelo mesmo que nós e assim sentimos que não estamos sozinhos, alguém está ao nosso lado nesse sofrimento!
Porquê o nosso egoísmo?????