terça-feira, dezembro 20, 2011

Luta pela recordação


Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...

Pablo Neruda

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!

Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!

Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!

E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvarez de Azevedo

TU


(Limitaste-te a cair das estrelas
E a mudar o meu mundo...)

Quero fechar os olhos
Pois é tão longe e tão tarde...
Deixa que me cale,
permite que me conforme

Quero-te...
Na carne
No abraço que me aconchega
No sabor do beijo doce
Na caricia das mãos
Nos dedos que em mim se entranham
No toque dos lábios
No fogo da pele

Quero-te!
É desejo, sedução
É encanto, atracção
É paixão, amor ardente
É alucinação, vicio que me domina
É sofrimento, afecto violento
É loucura, falta de senso
Amar-te é crime?
Deliro, eu sei...
Por ti

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Simplesmente Amo-te

Amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

Ouviste??!

Ouviste?
Sou um anjo triste
Que perdeu a sua voz.
Não me vês.
Mas sou eu
Quem te dá a mão
Quando estás a sonhar.
Não me sentes.
E sou eu quem te molda
E faz nascer,
Do barro
Que deixei
Há muito tempo atrás.
A tua vida
Corre com os meus dedos
Numa estrada por caminhar.
Ainda não me ouves?
Não faz mal.
A felicidade espera
Por quem sabe sonhar.
Susana Maria Júlio

quinta-feira, dezembro 08, 2011

As palavras que te envio são interditas


As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade