quarta-feira, dezembro 17, 2008

De tanto olhar o sol

De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.

Miguel Torga

Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles

Nudez

Desfaço o tempo até onde permito
Rasgo todos os lugares que lembro
Oculto vozes, depuro instantes
Desenleio ferozmente
Todos os caminhos até mim.

Nudez d'alma
Insónia cúmplice dos meus medos...

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Sigo a tua boca


Sigo a tua boca
Na procura do sal
Da maré que oferece vida
E na alma reencontro
A nudez melódica
De inesperados prantos
De inconfessos desejos
Que o tempo não afastou.

Na penumbra onde o silêncio és tu
Eu sou a névoa solitária que emana de ti...

"Na singular razão de tudo o que faço
Nada importa o que eu sou.
Memória curta, finada em pensamento.
Esquecida!
Pouco importa o que seja
Ou que deixe de o ser.
Morro em esquecimento
Entre um instante e um momento.
Viver não é lembrar
viver é ser.

Viver sem lembranças
Viver na morte do pensamento..."