segunda-feira, dezembro 29, 2014

"Amo-te... Porquê?, não sei, não encontro razões para esta verdade (...). Amo-te, só isso tudo... Amo-te sem medo de amar...


Talvez, porque de repente, além de seres o fundo do meu pensamento, não existe mais nada para mim... Porque, ao olhar-te, do teu ser irrompem bandas de melodias entrelaçando-se numa só, de tal harmonia que me leva em feitiço a qualquer sítio onde me queiras levar; por seres tu o verso do meu mundo concebido por ti apenas por estarmos, agora ao meu lado, e por sentir sob o olhar a água de todos os oceanos, só porque te vejo; e sobre as tuas mãos o mundo, um mundo sem peso, e na tua boca a perdição e o encontro, o reencontro e a perdição, o paraíso a cada piscar de olhos, um céu que se apaga e se acende em gotas de estrelas desenhando eternidade com os traços de nós os dois...


Amo-te porque quando me beijas adormeces-me o corpo e quando me tocas estremece-me-lo com essas carícias nascidas de pontes dos teus dedos, instigados por esse teu mesmo sentir igual ao meu. Porque quando sonho, não sonho contigo, mas com os dois, enfeitiçados, correndo incansáveis pelas intermináveis planícies do nosso planeta amar... Porque, se desaparecesses, o meu espírito, afogar-se-ia numa tristeza muito maior que o sentido que me vive, e, ao invés, sinto-me inatingível, imortal...


Amo-te só por te amar, não é para perceber, é assim, tão simples quanto isso, porque me atinge o corpo de cima abaixo uma energia criada por ti, que me faz viver mais, rir, pensar alegria, pensar só em ti onde quer que eu esteja. Mas tudo isso é já tão pouco, porque há muito que o meu sentimento se desprendeu das palavras para se fazer no ingrediente final do indizível...


É isso... Amo-te, porque a amar-te só eu. Sou só eu..."





CARLOS CANTO MONIZ

terça-feira, dezembro 16, 2014

No teu peito

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade