terça-feira, dezembro 21, 2010

Sinto-me enjaulado, preso!

"Sinto-me enjaulado, preso!
Preso nas garras de um mundo obsoleto, ultrajado e inútil.
Caminho por ruas que se parecem com corredores
Onde as casas não passam de celas
Que me ferem os movimentos.
O barulho da cidade assusta-me!
Olho para os becos e vejo emergir
Corpos que lutam entre si.
Vejo o ódio desenhado nas máscaras de cada pessoa que passa
Vejo a ambição e o desespero que lhes queima o rosto.
Todos se preocupam com o mais importante:
ÓDIO, DOR, DESPREZO, MORTE, DESTRUIÇÃO!
Ninguém conhece ninguém e estão condicionados
A números a que chamam tempo, tempo de serem alguém.
São todos artificiais, não conhecem
A AMIZADE, o AMOR, a ESPERANÇA.
Tudo foi esquecido...
Sinto frio, a indiferença gela-me o coração.

Duas figuras brancas destacam-se da multidão.
Sei quem são, mas pouca importância lhes dou
Sei que para onde me levam tudo é diferente.
Sim, fui considerado LOUCO!"

Cobarde

Meu querer é cobarde
Foge do que sinto
Como quem foge do que arde
E quanto mais quero
Mais arde, mais queima.

Encontro-me alienado
Talvez morto, talvez descansado...

Escreve-me

Escreve-me!
Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto daçucenas!
Escreve-me!
Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


Florbela Espanca