terça-feira, janeiro 06, 2009

No entupir do sangue pela noite
Ofereço-me em sacrifício ao medo.
Sou presa fácil, caça da vida!!
Demência dócil que me engole...
Celebro-me em arrepios de morte
Encanto-me em sonos mórbidos
Enleio-me em ressacas de embalar.

Assassino todos os enredos banais
Abraço a chegada quando a fuga já é partida...

Sulcos da sede

É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 04, 2009

Estranheza


Mãe
que distancia é esta
que vai de mim a ti
distancia crescida
se um dia fomos
uma quase - única forma
uma quase única vida
Mãe
estranho sentir o meu
que te vejo estrangeira
e a palavra
mais não é que limite…
Mãe
que desconforto é este
se teus braços um dia foram
repouso, refúgio
e hoje
apenas braços…os teus
abraço que recuso
Mãe
que nome tem o que sinto
espada que pra ti volto
muralha que eu mesmo ergo
por já não saber dizer-me…
Mãe
razão desta dor que nutro
taça do meu amargo néctar,
oferenda do nosso grito mútuo.

Angela Santos