quinta-feira, janeiro 31, 2008

Que mais quero?

Não sei se é amor que tens,
ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo.
tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão,
e o pouco é falso.
Porém, se o dão,
falso que seja,
a dádiva É verdadeira.
Aceito, Cerro olhos:
é bastante.
Que mais quero?
Fernando Pessoa/Ricardo Reis

quarta-feira, janeiro 16, 2008

Transforma-se o amador na cousa amada

Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejar,
Pois em mim tenho a parte desejada.

Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si sómente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.

Mas esta linda e pura semideia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim co'a alma minha se conforma,

Está no pensamento como ideia;
[E] o vivo e puro amor de que sou feito,
Como matéria simples busca a forma.


Luís de Camões