segunda-feira, dezembro 29, 2014

"Amo-te... Porquê?, não sei, não encontro razões para esta verdade (...). Amo-te, só isso tudo... Amo-te sem medo de amar...


Talvez, porque de repente, além de seres o fundo do meu pensamento, não existe mais nada para mim... Porque, ao olhar-te, do teu ser irrompem bandas de melodias entrelaçando-se numa só, de tal harmonia que me leva em feitiço a qualquer sítio onde me queiras levar; por seres tu o verso do meu mundo concebido por ti apenas por estarmos, agora ao meu lado, e por sentir sob o olhar a água de todos os oceanos, só porque te vejo; e sobre as tuas mãos o mundo, um mundo sem peso, e na tua boca a perdição e o encontro, o reencontro e a perdição, o paraíso a cada piscar de olhos, um céu que se apaga e se acende em gotas de estrelas desenhando eternidade com os traços de nós os dois...


Amo-te porque quando me beijas adormeces-me o corpo e quando me tocas estremece-me-lo com essas carícias nascidas de pontes dos teus dedos, instigados por esse teu mesmo sentir igual ao meu. Porque quando sonho, não sonho contigo, mas com os dois, enfeitiçados, correndo incansáveis pelas intermináveis planícies do nosso planeta amar... Porque, se desaparecesses, o meu espírito, afogar-se-ia numa tristeza muito maior que o sentido que me vive, e, ao invés, sinto-me inatingível, imortal...


Amo-te só por te amar, não é para perceber, é assim, tão simples quanto isso, porque me atinge o corpo de cima abaixo uma energia criada por ti, que me faz viver mais, rir, pensar alegria, pensar só em ti onde quer que eu esteja. Mas tudo isso é já tão pouco, porque há muito que o meu sentimento se desprendeu das palavras para se fazer no ingrediente final do indizível...


É isso... Amo-te, porque a amar-te só eu. Sou só eu..."





CARLOS CANTO MONIZ

terça-feira, dezembro 16, 2014

No teu peito

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.
Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha

Eugénio de Andrade

quarta-feira, novembro 26, 2014

Amo-te Sempre

Amo-te sempre
com um pouco de barco e de vento
com uma humildade de mar à tua volta
dentro do meu corpo; com o desespero
de ser tempo;

com um pouco de sol e uma fonte
adormecida na ternura.

Merecer este minuto de palavras habitando
o que há sem fim no teu retrato;
Este mesmo minuto em que chegam e partem navios
- nesta mesma cidade deste
minuto, desta língua, deste
romance diário dos teus olhos -

(e chegarão com armas? refugiados? trigo?
partirão com noivas? missionários? guerras? discursos?)

Merecer a densa beleza do teu corpo
que tem água e ternura, células, penumbra,
que dormiu no berço, dormiu na memória,
que teve soluços, febre, e absurdos desejos
maiores que os braços,

merecer os dias subindo das florestas - e vêm
banhar-se, lentos, nos teus olhos...

Merecer a Igreja, o ajoelhar das palavras,
entre estes cinemas visitando, em duas horas, a alma,
estes eléctricos parando atrás do infinito
para subirem os namorados, a viúva, o cobrador da luz, a costureira
entre estes homens que ganham dinheiro, sangue frio, ou vícios, ou medalhas
e estes telefones roubando a lealdade dos olhos...

Teus cabelos cheirarão ainda a infância
e a vento, depois de passarem por esta fome pública,
estes olhos com regras de trânsito, estes dias sujos,
estes lábios que já não ensinam o pomar
ou a fonte, nem têm gosto de leite e de aurora,
depois destes olhos cheios da pergunta de estarem vivos
em vão?

Merecer honradamente este poema, todos os poemas,
como quem parte, entre os dedos a brancura
quente de um pão!


Vítor Matos e Sá, in 'Esparsos'

segunda-feira, novembro 17, 2014

Nunca Ninguém Amou Completamente

Vou deitar-te na eternidade, que é esse o teu lugar, é esse, é esse. E agora só tenho que te amar tudo de ti, não deixar nada de fora. Porque, sabê-lo-ás? Nunca ninguém amou completamente, houve sempre uma forma de amar fragmentária, parcial. Amou-se sempre em função de uma fracção do amor como se usou um vestuário segundo a moda, desde o calção ou o penante de plumas. Vou-te amar como Deus. Não, não. Deus não sente prazer nem movimento progressivo até ao prazer, coitado, é tão infeliz. Vou-te amar como um homem desde que os há, desde o tempo das cavernas até hoje e com um pequeno suplemento que é só meu.


Vergílio Ferreira, in "Em Nome da Terra"

quinta-feira, novembro 13, 2014

A boca

A boca,
onde o fogo
de um verão
muito antigo cintila,
a boca espera
(que pode uma boca esperar senão outra boca?)
espera o ardor do vento
para ser ave e cantar.

Levar-te à boca,
beber a água mais funda do teu ser
se a luz é tanta,
como se pode morrer?

Eugénio de Andrade

quarta-feira, novembro 12, 2014

Antes de te amar

Antes de amar-te, amor, nada era meu
Vacilei pelas ruas e as coisas:
Nada contava nem tinha nome:
O mundo era do ar que esperava.
E conheci salões cinzentos,
Túneis habitados pela lua,
Hangares cruéis que se despediam,
Perguntas que insistiam na areia.
Tudo estava vazio, morto e mudo,
Caído, abandonado e decaído,
Tudo era inalienavelmente alheio,
Tudo era dos outros e de ninguém,
Até que tua beleza e tua pobreza
De dádivas encheram o outono.
Pablo Neruda

sábado, outubro 04, 2014

Tu sabes


Será Amor,
será verdade,
será intuição,
será querer,
será poder,
será desejo
ou será apenas
utopia...
A nossa razão de viver,
somos nós próprios,
que a escolhemos.
Eu escolhi a minha.
Apesar disso,
nem sempre a conseguimos
alcançar imediatamente...
Mas, porque é que
temos de escolher tudo para nós?
Sabemos que existem coisas
que apenas surgem do nada...
Porquê querer precipitar esse nada...???
Está fora do nosso dominio,
daí o receio,
o medo.
A vontade de o alcançar,
o mais rápido possível,
surge
por mera ilusão
de control!
Pois é...
Pensamos que escolhemos
determinadas situações da nossa vida,
mas não,
não passa de ilusão,
a verdade é que,
devemos ao destino,
à sorte...
Apenas podemos tentar
controlar
os nossos movimentos
diante dessas mesmas situações,
Sem nunca ter
o dom
de as conseguir definir!
Uma certeza tenho,
o meu modo de vida é AMAR-TE.
Fazer-te FELIZ...

João Pedro

quinta-feira, setembro 25, 2014

tu


É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.


Pablo Neruda

terça-feira, setembro 16, 2014

O Amor é Inevitável

(O Amor) É inevitável, faz parte da combustão da natureza, é força, mar, elemento, água, fogo, destruição, é atmosfera, respira-se, quando se morre abandona-se, o amor deixa, fica isolado, é um elemento, come-se, bebe-se, sustenta pão, pão diário para rico e pobre, pão que ilumina o forno do amassador, aparece nas condições mais estranhas, bicho que nasce, copula dentro de si mesmo, paira, espermatozóide e óvulo, as duas coisas ao mesmo tempo, amor é assim outro elemento fundamental da natureza, as pessoas vivem tanto com o amor, ou tão alheias do amor, que nem notam, raro percebem que o amor existe, raro percebem que respiram, que a água está, é indispensável, ninguém pode viver alheio aos elementos, ao amor.


Ruben A., in 'Silêncio para 4'

sexta-feira, fevereiro 14, 2014

O amor de agora


O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.


Dante Milano

quinta-feira, setembro 12, 2013

Todas as Nossas Paixões se Justificam a Si Próprias

Existem duas ocasiões distintas em que examinamos a nossa própria conduta e buscamos vê-la sob a luz em que o espectador imparcial a veria: primeiro, quando estamos prestes a agir; e, segundo, depois que agimos. Em ambos os casos os nossos juízos tendem a ser bastante parciais, mas eles tendem a tornar-se ainda mais parciais quando seria da maior importância que não fossem. Quando estamos prestes a agir, a veemência da paixão raramente nos permitirá considerá-la com a isenção de uma pessoa neutra. As violentas emoções que nesse momento nos agitam distorcem os nossos juízos sobre as coisas, mesmo quando buscamos colocar-nos na situação de outra pessoa. (...) Por essa razão, como diz Malebranche, todas as nossas paixões se justificam a si próprias, e parecem razoáveis e proporcionais aos seus objectos enquanto nós estivermos a senti-las. (... ) A opinião que cultivamos do nosso próprio carácter depende inteiramente dos nossos juízos acerca da nossa conduta passada. Mas é tão desagradável pensarmos mal de nós mesmos que amiúde afastamos propositadamente o nosso olhar das circunstâncias que poderiam tornar o julgamento desfavorável. (...) Esse auto-engano, essa fraqueza fatal dos homens, é a fonte de metade das desordens da vida humana. Se pudéssemos ver-nos como os outros nos vêem, ou como veriam se estivessem a par de tudo, uma reforma geral seria inevitável. Seria impossível, de outro modo, suportar a visão.

Adam Smith, in 'A Teoria dos Sentimentos Morais'

quinta-feira, agosto 15, 2013

A Realidade do Amor

Que sempre existam almas para as quais o amor seja também o contacto de duas poesias, a convergência de dois devaneios. O amor, enquanto amor, nunca termina de se exprimir e exprime-se tanto melhor quanto mais poeticamente é sonhado. Os devaneios de duas almas solitárias preparam a magia de amar. Um realista da paixão verá aí apenas fórmulas evanescentes. Mas não é menos verdade que as grandes paixões se preparam em grandes devaneios. Mutilamos a realidade do amor quando a separamos de toda a sua irrealidade.

Gaston Bachelard, in ' A Poética do Devaneio'

domingo, agosto 04, 2013

Angel Song


Este sou eu com outra crise nervosa
A minha pressão caiu, o corpo foi com ela
A memória falha, sinto-me claustrofóbico
Eu grito uma dor silenciosa, neste grande nada
Não há ninguém aqui
Diz-me quem está aí agora?
Quem está contigo?
Não atendo chamadas, a não ser que seja a tua voz
Não vejo ninguém sem seres tu
Abro a caixa do correio a toda a hora
Talvez apanhe o carteiro
Eu quero ouvir algumas palavras de amor
Mas não nesta voz disléxica
Não eu não vou desmoronar por ti
Mas eu não tive escolha
Acho que tentei manter-me vivo
Mas um vez morto, não havia nada a fazer, senão
Levantar-me e Estirar-me
À espera de um anjo
Que me acorde e diga:
"Olá. Não tenhas medo. Eu quero que saibas que não
estás morto"
Beija-me, isto será um sonho?
Deverei acreditar? Por favor,
Promete-me, que não me vou magoar desta vez.
Sou demasiado bom para você? Ou estou apenas
paranóico?
Deveria receber tratamento médico ou deveria falar
mais baixo?
Talvez devesse fechar os meus olhos durante anos
E esperar pelo sentimento mais forte de todos os
sentimentos
Para nascer de ti.
Sou real? Tu és real?
Diz-me, o que é real?

Silence 4

segunda-feira, junho 17, 2013

Quero o teu corpo


VEJO o teu corpo
Deitado no ar
Que respiro
Humedecido de estrelas.

SINTO o teu corpo
De alegre luar
Que me incendeia
No calor da insónia.


OUÇO o teu corpo
Ao sol e à chuva,
Que afago baixinho
Com mãos de guitarra.


CHEIRO o teu corpo
Tépido e branco,
Que me inebria
Com pérolas vivas.


PROVO o teu corpo
Oásis de mim,
Que ocupo sedento
Cheio de paz.


QUERO o teu corpo
Da alma trajado,
Que anseio ditoso
E arrebatado.


Nilson Barcelli

domingo, maio 26, 2013

Procura

Procura a maravilha.
Onde um beijo sabe
a barcos e bruma.
No brilho redondo
e jovem dos joelhos.
Na noite inclinada
de melancolia.
Procura.
Procura a maravilha.


Eugénio de Andrade

segunda-feira, março 18, 2013

Frente a frente


Nada podeis contra o amor,
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco!


Eugénio de Andrade

sábado, novembro 24, 2012

Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.

Eugénio de Andrade

sábado, maio 26, 2012

Amo-te Muito, Meu Amor, e Tanto

Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.

Que encanto é o teu? Se continua enquanto
sofro a traição dos que, viscosos, prendem,
por uma paz da guerra a que se vendem,
a pura liberdade do meu canto,

um cântico da terra e do seu povo,
nesta invenção da humanidade inteira
que a cada instante há que inventar de novo,

tão quase é coisa ou sucessão que passa...
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da Graça.

Jorge de Sena, in “Poesia, Vol. I”

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

Eu e Tu

Dois! Eu e Tu, num ser indispensável! Como
Brasa e carvão, centelha e lume, oceano e areia,
Aspiram a formar um todo, em cada assomo
A nossa aspiração mais violenta se ateia...

Como a onda e o vento, a Lua e a noite, o orvalho e a selva
O vento erguendo a vaga, o luar doirando a noite,
Ou o orvalho inundando as verduras da relva
Cheio de ti, meu ser de eflúvios impregnou-te!

Como o lilás e a terra onde nasce e floresce,
O bosque e o vendaval desgrenhando o arvoredo,
O vinho e a sede, o vinho onde tudo se esquece,
Nós dois, de amor enchendo a noite do degredo,

Como partes dum todo, em amplexos supremos
Fundindo os corações no ardor que nos inflama,
Para sempre um ao outro, Eu e Tu, pertencemos,
Como se eu fosse o lume e tu fosses a chama...


António Feijó, in 'Sol de Inverno'

terça-feira, fevereiro 14, 2012

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida


Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"

Amor e Seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prémio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe.

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade, in 'As Impurezas do Branco'

Obscuro Domínio

Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor.
Sorver o rumor das luzes
entre os teus lábios fendidos.

Deslizar pela vertente
da garganta, ser música
onde o silêncio aflui
e se concentra.

Irreprimível queimadura
ou vertigem desdobrada
beijo a beijo,
brancura dilacerada

Penetrar na doçura da areia
ou do lume,
na luz queimada
da pupila mais azul,

no oiro anoitecido
entre pétalas cerradas,
no alto e navegável
golfo do desejo,

onde o furor habita
crispado de agulhas,
onde faça sangrar
as tuas águas nuas.

Eugénio de Andrade, in "Obscuro Domínio"

sábado, janeiro 07, 2012

O Jardim


quero-te regar minha flor
quero cuidar de ti
deixa-me entrar no jardim
deixa-me voltar a dormir


quero-te regar minha flor
dar-te de novo a paz que perdi
quero desvendar a parte triste que há em ti
deixa-me existir no espaço novo, que acordaste em mim
nao ves que é de nós o jardim
que se fez, nao vês
que é que nos o jardim
que nos faz em olha
que este frio faz tremer em fica
e faz voltar o que tens e que é meu


nao ves que é de nós o jardim
que se fez,nao vês
que é que nos o jardim
que nos faz em olha
que este frio faz tremer em fica
e faz voltar o que tens e que é meu
porque é meu

Tiago Bettencourt

terça-feira, dezembro 20, 2011

Luta pela recordação


Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...

Pablo Neruda

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Amor

Amemos! Quero de amor
Viver no teu coração!
Sofrer e amar essa dor
Que desmaia de paixão!

Na tu’alma, em teus encantos
E na tua palidez
E nos teus ardentes prantos
Suspirar de languidez!

Quero em teus lábio beber
Os teus amores do céu,
Quero em teu seio morrer
No enlevo do seio teu!

Quero viver d’esperança,
Quero tremer e sentir!
Na tua cheirosa trança
Quero sonhar e dormir!

Vem, anjo, minha donzela,
Minha’alma, meu coração!
Que noite, que noite bela!
Como é doce a viração!

E entre os suspiros do vento
Da noite ao mole frescor,
Quero viver um momento,
Morrer contigo de amor!

Álvarez de Azevedo

TU


(Limitaste-te a cair das estrelas
E a mudar o meu mundo...)

Quero fechar os olhos
Pois é tão longe e tão tarde...
Deixa que me cale,
permite que me conforme

Quero-te...
Na carne
No abraço que me aconchega
No sabor do beijo doce
Na caricia das mãos
Nos dedos que em mim se entranham
No toque dos lábios
No fogo da pele

Quero-te!
É desejo, sedução
É encanto, atracção
É paixão, amor ardente
É alucinação, vicio que me domina
É sofrimento, afecto violento
É loucura, falta de senso
Amar-te é crime?
Deliro, eu sei...
Por ti

quarta-feira, dezembro 14, 2011

Simplesmente Amo-te

Amo-te sem saber como, ou quando, ou a partir de onde. Simplesmente amo-te, sem problemas ou orgulho: eu amo-te desta maneira porque não conheço qualquer outra forma de amar sem ser esta, onde não existe eu ou tu, tão intimamente que a tua mão sobre o meu peito é a minha mão, tão intimamente que quando adormeço os teus olhos fecham-se.


Pablo Neruda, in "Cem Sonetos de Amor"

Ouviste??!

Ouviste?
Sou um anjo triste
Que perdeu a sua voz.
Não me vês.
Mas sou eu
Quem te dá a mão
Quando estás a sonhar.
Não me sentes.
E sou eu quem te molda
E faz nascer,
Do barro
Que deixei
Há muito tempo atrás.
A tua vida
Corre com os meus dedos
Numa estrada por caminhar.
Ainda não me ouves?
Não faz mal.
A felicidade espera
Por quem sabe sonhar.
Susana Maria Júlio

quinta-feira, dezembro 08, 2011

As palavras que te envio são interditas


As palavras que te envio são interditas
até, meu amor, pelo halo das searas;
se alguma regressasse, nem já reconhecia
o teu nome nas suas curvas claras.

Dói-me esta água, este ar que se respira,
dói-me esta solidão de pedra escura,
estas mãos nocturnas onde aperto
os meus dias quebrados na cintura.

E a noite cresce apaixonadamente.
Nas suas margens nuas, desoladas,
cada homem tem apenas para dar
um horizonte de cidades bombardeadas.

Eugénio de Andrade

quinta-feira, novembro 17, 2011

Deixa-me prender
Os meus passos aos teus
Sem pesos nem medidas
Como sombra leve que se revela
À tua frente
Só para te olhar.
Deixa-me viver
A alma na tua alma
Duas essências numa só
De amor perfeito
Como alquimia eterna
De toda a criação.
Deixa-me perder-me
No teu corpo – caminho
De todas as possibilidades,
Em tantas emoções genuínas...
Carrossel delicado de dança sem palavras.
Olhar preso em olhar.
O meu no teu.
Deixa-me acontecer
Como uma vida discreta
Que nasceu para te amar
Fora do sonho, fora deste lugar
Mas apenas
Onde só eu te sei encontrar.
Deixa-me Amar-te.

Susana Júlio

sexta-feira, novembro 11, 2011

i


Acordei com uma vontade enorme de mudar... Só mudar!
Para onde, sei, não quero dizer, existem nuvens no céu que me impedem de ver o sol. A realidade está escondida por trás do cinzento, mas a verdade é que quando acordei conseguia ter raios de sol sobre os meus olhos, bonita luz da manhã, que se esvaneceu com o derramar dos meus pensamentos!
A origem de tudo, surgiu ontem, a lua baça por detrás da neblina nocturna trouxe ideias antigas, escondidas dentro do meu subconsciente, que será consciente!
Na verdade trata-se de algo que não posso controlar, muito menos escolher, realidade escondida na luz que não consigo decifrar.
Para hoje ou amanhã descortinar, por entre o fluir dos sonhos, de encontro a uma realidade longiqua de tão perto que pode estar, aperto as mãos, solto o suspiro, fecho o olho, solto o lábio por entre sussuros de uma música... Aí está, nada aos olhos, apenas a cor escura por entre aromas que surgem a confundir sentimentos dispersos a procurar um rumo, invento no sonho esse caminho, passagem para uma realidade ainda distante mas que acredito chegar um dia!


João Pedro

terça-feira, setembro 20, 2011

Duas Almas

Ó tu, que vens de longe, ó tu, que vens cansada,
entra, e, sob este tecto encontrarás carinho:
Eu nunca fui amado, e vivo tão sozinho,
vives sozinha sempre, e nunca foste amada...
A neve anda a branquear, lividamente, a estrada,
e a minha alcova tem a tepidez de um ninho.
Entra, ao menos até que as curvas do caminho
se banhem no esplendor nascente da alvorada.
E amanhã, quando a luz do sol dourar, radiosa,
essa estrada sem fim, deserta, imensa e nua,
podes partir de novo, ó nomada formosa!
Já não serei tão só, nem irás tão sozinha:
Há de ficar comigo uma saudade tua...
Hás de levar contigo uma saudade minha...

Alceu Wamosy

segunda-feira, agosto 08, 2011

A Admiração é a Primeira de Todas as Paixões

Quando o primeiro contacto com algum objecto nos surpreende e o consideramos novo ou muito diferente do que conhecíamos antes ou então do que suponhamos que ele devia ser, isso faz que o admiremos e fiquemos espantados com ele. E como tal coisa pode acontecer antes que saibamos de alguma forma se esse objecto nos é conveniente ou não, a admiração parece-me ser a primeira de todas as paixões. E ela não tem contrário, porque, se o objecto que se apresenta nada tiver em si que nos surpreenda, não somos emocionados por ele e consideramo-lo sem paixão.


René Descartes, in 'As Paixões da Alma'

quinta-feira, julho 14, 2011

Nas luzes do vento

“Nas luzes do vento,
Não as desejas ouvir
Vem a música do alento
Que hás-de sentir…
Terás que a esconder
Agarrar, apertar e soltar
No seu conforto, voltarás a viver
E sentirás a sua presença no ar
Verás verdes astros
Ouvirás o grito das flores
O aroma, de que tanto te foges
Estará contigo eternamente
Para que sintas o gosto do veludo
E o tacto da lua
Para encontrares, de novo
O caminho da felicidade!”


João Pedro

terça-feira, junho 21, 2011

O Amor é Muito Difícil

Penso que o amor é muito difícil. Existem muitos obstáculos a que possa ser o absoluto que é. A palavra amor é uma palavra muito gasta, muito usada, e muitas vezes mal usada, e eu quando falo de amor faço-o no sentido absoluto... há uma série de outros sentimentos aos quais também se chama amor e que não o são. No amor é preciso que duas pessoas sejam uma e isso não é fácil de encontrar. E, uma vez encontrado, não é fácil de fazer permanecer.

José Luís Peixoto, in 'Notícias Magazine (2003)

Tudo se Resume ao Amar e ser Amado

Não fala. Não se explica. Não se vê e muito menos se apalpa. A sua dimensão não cabe na própria palavra de definição, nem há palavras exactas que o definam. Não se sabe porquê nem se sabe o sentido na sua existência. Não tem limites quantificáveis nem padrões comportamentais a serem seguidos. Não é incógnito, não é um mistério nem um mito. Ele existe na sua real personificação em actos e euforias sentimentais. Falasse dele soletrando uma palavra, mas essa mesma palavra é tão vazia de conteúdo que nem dele sabe falar na sua plenitude, apenas estabelece uma forma verbal para que possa ser identificado. É muito mais que isso, muito mais que palavras e conceitos. Vai para além das teorias e conversas abstractas. É superior ao desejo humano de egoísmo social estabelecendo pontes entre impossíveis. Não tem cheiro nem cor, pode ser todas as cores ao mesmo tempo, e nesse mesmo tempo não ser nenhuma. Pode tudo e o impossível. Fazemos uso dele mesmo sem sequer ser suposto estar a senti-lo!

Não avisa. Surge e instala-se. Sente-se. É a única coisa que é real e coerente dizer-se. Sente-se. A partir deste ponto, nada mais é igual, nada mais é concreto, nada mais é plausível de se previsível. Ficamos subjugados à sua vontade e na qual vamos vivendo segundo a sua rota. Ficamos inconscientes de acções, mas conscientes de que queremos viver com ele para sempre, apesar de negarmos vezes sem conta a sua grandiosidade, pois torna-nos mais vulneráveis. Apesar de fazer doer bem fundo e de levar a insanidade à exaustão, sem ele não saberíamos viver. Apenas sobrevivíamos dia após dia sem conteúdo afectivo, onde as coisas perderam o brilho natural de serem amadas, porque se ele não existisse, não haveria o motivo para se amar. A dor que ele nos deixa não é mais que um bónus de sabedoria que nos permite sentir realmente vivos. Não faria sentido viver sem ele apesar do seu sentido não ser perfeitamente compreendido. Apenas sabemos que aquela sensação exclusivamente pessoal, faz-nos sorrir, faz-nos querer, faz-nos tentar, faz-nos não desistir quando tudo à volta perdeu a vontade, faz-nos querer, faz-nos ser felizes, mesmo não sabendo bem usá-lo em forma de expressão. Só sabemos que estamos com ele naquele momento mortífero em que o Sentimos.

Quase que magoa a garganta no nó que se forma, nauseados de encantamento ficamos perante aquela figura, ficamos parados no tempo, naquele momento visual que tudo parece ser pequeno face ao que sentimos, onde questionamos tudo, mesmo a nossa real existência. É estranho e contraditório. Sentimo-nos estranhos, irreconhecíveis ao nosso espelho interior. Frágeis na sua presença, triste e vazios sem ele. É maleficamente tenebroso quando não tem forma de retorno. É triste por nos tornar tristes, perigoso por nos controlar os actos, é alheio a quaisquer éticas sociais. Mas é demasiadamente bom de ser negado, de ser ignorado. É avassaladoramente saboroso mesmo no seu lado imperfeito para deixar de ser sentido. Por ele fazemos tudo, sem ele somos nada. Não vale de nada palavras complexas e rebuscadas para o tentar exprimir. Ele é a complexa forma da simplicidade traduzida em afectos. Tudo se resume ao amar e ser amado. A sua exuberante simplicidade é que nos faz ser complexos perante tal força sem definição. Não vale a pena tentar perceber ou questionar, e muitos menos tentar explicar em forma de frases sem sentido directo de interpretação. Apenas se deve sentir e vivê-lo. De outra forma não saberemos viver com ele, e sem ele não se vive o expoente máximo da felicidade. Ele, na primeira pessoa a que chamam Amor.

Ana Soares da Silva Rodrigues Neto, in 'Textos de Amor – Museu Nacional da Imprensa'

sexta-feira, junho 17, 2011

O Amor é um Prémio sem Mérito

O amor é, por definição, um prémio sem mérito. Se uma mulher me diz: eu amo-te porque tu és inteligente, porque és uma pessoa decente, porque me dás presentes, porque não andas atrás de outras mulheres, porque sabes cozinhar, então eu fico desapontado. É muito melhor ouvir: eu sou louca por ti embora nem sejas inteligente nem uma pessoa decente, embora sejas um mentiroso, um egoísta e um canalha.


Milan Kundera, in "A Lentidão"

quinta-feira, junho 16, 2011

O Sucesso para um Grande Amor

Estou contente porque a minha querida não tem ainda o afecto exclusivo e único que há-de sentir um dia por um homem, apesar de todas as suas teorias que há-de ver voar, voar para tão longe ainda!... E no entanto, elas são tão verdadeiras! Ainda assim, minha querida Júlia, uma das coisas melhores da nossa vida de tão prosaico século, é o amor, o grande e discutido amor, o nosso encanto e o nosso mistério; as nossas pétalas de rosa e a nossa coroa de espinhos. O amor único, doce e sentimental da nossa alma de portugueses, o amor de que fala Júlio Dantas, «uma ternura casta, uma ternura sã» de que «o peito que o sente é um sacrário estrela­do», como diz Junqueiro; o amor que é a razão única da vida que se vive e da alma que se tem; a paixão delicada que dá beijos ao luar e alma a tudo, desde o olhar ao sorriso, — é ainda uma coisa nobre, bela e digna! Digna de si, do seu sentir, do seu grande coração, ao mesmo tempo violento e calmo. Esse amor que «em sendo triste, canta, e em sendo alegre, chora», esse amor há-de senti-lo um dia, e embora morto, perfumar-lhe-á a alma até à morte, num perfume de saudade que jamais o tempo levará!
No entanto, o casamento é brutal, como a posse é sempre brutal, sempre! O melhor beijo, o beijo mais doce, aquele que se não esquece nunca, é aquele que nunca se deu, disse-o um dia um poeta, e eu creio. Só para as mulheres, as tais mulheres mais animais que espirituais, é que o casamento não é a desilusão de sempre, — mas então nós? Se ganhamos um grande amigo, o que nós sofremos muitas vezes! A revolta de tudo quanto há de delicado em nós, e que se ofende e se indigna com as afrontas que são afinal uma grande lei da Natureza! E não há homem, por superior que seja, que com­preenda esta revolta e que a desculpe! Em tudo eu penso exactamente o mesmo que a minha querida Júlia; não há nada, tanto para os homens como para a mulher, que valha a liberdade tanto alma como de pensa­mento. É o casamento um grilhão de flores e risos? De acor­do, mas é sempre um grilhão. Ria, pois, e cante com a sua bela alegria, ame doidamente alguém, mas nunca abdique nem uma só das suas graças, nem uma só das suas ideias que lhe fazem vincar a fronte às vezes com uma pequenina ruga de capricho e insolência, que fica tão bem às mulheres boni­tas; não ajoelhe nunca, porque está nisso o nosso grande mal, o nosso profundíssimo erro; nós invertemos muitas vezes os papéis, e em proveito deles, e depois as consequências são muitas vezes as paixões que devastam uma vida inteira por criaturas que se dignam dar, por último, como humilde mortalha, um olhar de compaixão! O melhor de todos os homens não vale um fanatismo, creia-me, e embora a nossa alma, com essa ânsia de amor, de ternura que canta sempre em nós, se lhes dedique completamente, que eles o não sai­bam nunca, que não suspeitem sequer!... Abdicando um grau da nossa realeza, teremos de descer sempre, sempre, até ao fim. Não é verdade isto?

Florbela Espanca, in "Correspondência (1916)"

terça-feira, junho 14, 2011

É Preciso Aprender a Amar

Que se passa para nós no domínio musical? Devemos em primeiro lugar aprender a ouvir um motivo, uma melodia, de uma maneira geral, a percebê-lo, a distingui-lo, a limitá-lo e isolá-lo na sua vida própria; devemos em seguida fazer um esforço de boa vontade — para o suportar, mau-grado a sua novidade — para admitir o seu aspecto, a sua expressão fisionómica — e de caridade — para tolerar a sua estranheza; chega enfim o momento em que já estamos afeitos, em que o esperamos, em que pressentimos que nos faltaria se não viesse; a partir de então continua sem cessar a exercer sobre nós a sua pressão e o seu encanto e, entretanto, tornamo-nos os seus humildes adoradores, os seus fiéis encantados que não pedem mais nada ao mundo, senão ele, ainda ele, sempre ele.
Não sucede assim só com a música: foi da mesma maneira que aprendemos a amar tudo o que amamos. A nossa boa vontade, a nossa paciência, a nossa equanimidade, a nossa suavidade com as coisas que nos são novas acabam sempre por ser pagas, porque as coisas, pouco a pouco, se despojam para nós do seu véu e apresentam-se a nossos olhos como indizíveis belezas: é o agradecimento da nossa hospitalidade. Quem se ama a si próprio aprende a fazê-lo seguindo um caminho idêntico: existe apenas esse. O amor também deve ser aprendido.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

segunda-feira, junho 13, 2011

Labirinto ou Alguns Lugares de Amor

O outono
por assim dizer
pois era verão
forrado de agulhas

a cal
rumorosa
do sol dos cardos

sem outras mãos que lentas barcas
vai-se aproximando a água

a nudez do vidro
a luz
a prumo dos mastros

os prados matinais
os pés
verdes quase

o brilho
das magnólias
apertado nos dentes

uma espécie de tumulto
as unhas
tão fatigadas dos dedos

o bosque abre-se beijo a beijo
e é branco

Eugénio de Andrade, in "Véspera da Água"

quarta-feira, maio 25, 2011

"Tudo que não seja viver escondido numa casinhola, pobre ou rica, com uma pessoa que se ame, e no adorável conforto espiritual que dê esse amor - me parece agora vão, fictício, inútil, oco e ligeiramente imbecil."


Eça de Queirós

terça-feira, maio 17, 2011

Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.


Pablo Neruda

quarta-feira, março 23, 2011

TIRANIA DO MEDO

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.


Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

quarta-feira, fevereiro 09, 2011

Bonito Rasgo


Através da esrita tentamos transmitir sentimentos, impossíveis de descrever!
Através do grito conseguimos libertar muito do que nos atormenta...
Através do sonho alcançamos o que tanto desejamos, numa realidade utópica.
Realidade essa em que se confunde verdade e mentira...
O instante tem o poder de definir tudo... Para felicidade e tristeza!

João Pedro

Luz das estrelas

Bem longe
Essa nave está a levar-me para bem longe
Para bem longe das memórias
Das pessoas que se importam se vivo ou morro
Luz das estrelas
Eu vou estar perseguindo a luz das estrelas
Até o fim da minha vida
Eu não sei se ela vale mais
Segurar-te nos meus braços
Eu só quero segurar-te nos meus braços
Minha vida
Tu eletrificas a minha vida
Vamos conspirar para dar ignição
Todas as almas podem morrer apenas para se sentir vivas
Mas eu nunca te vou deixar ir
Se tu prometeste que nunca vais enfraquecer
Enfraquecer
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Vou segurarar-te nos meus braços
Eu só quero segurar-te nos meus braços
Bem longe
Essa nave está a levar-me para bem longe
Para bem longe das memórias
Das pessoas que se importam se vivo ou morro
Mas eu nunca te vou deixar ir
Se tu prometeste que nunca vais enfraquecer
Enfraquecer
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Nossas esperanças e expectativas
Buracos negros e revelações
Segurar-te nos meus braços
Eu só quero segurar-te nos meus braços
Eu só quero segurar
Muse

quinta-feira, janeiro 20, 2011

Extase

"Desejei-te ontem, de mais, e hoje também. Todos os dias são o mesmo dia quando te desejo assim. Só penso em ti. És inigualável. De olhos fechados consigo encontrar-te, só a ti amo de olhos abertos. Amo-te de mais. Não peço o teu amor. De ti não exijo nada. Mas nunca me digas que o nosso amor é impossível. Tu fazes-me viver, sonhar, acordar. Tu és o meu diamante solítário e entre nós não há qualquer contrato. Quando te escrevo tu não foges das minhas páginas. Quando te escrevo tu ressuscitas a minha alma. Acompanho o teu sorriso de longe e de perto, minha princesa, linda. Guardo comigo o teu olhar e sei que te recordas do meu corpo a tentar convencer-te que o meu amor é inteiro, embora nunca o seja o bastante. É bom desconfiar do amor porque ele às vezes é traiçoeiro, metamorfoseia-se em reles sentimentos, és tu que me dizes. Eu não concordo. Desculpa-me princesa, o ter-te acordado hoje/amanhã tão cedo. Tu sabes que não uso relógio. Só sei se é dia, se é noite. Tu sabes que eu sou um apaixonado. Perdoa-me. Diz qualquer coisa logo que possas. Sinto saudades, é só. Não existe corpo, não existe face, não existe sexo, amor e existe TUDO isso.
Só o amor é imortal, acredita."

segunda-feira, janeiro 10, 2011

Morder-te...

"Deitada à minha frente
Desejei mastigar-te
Morder-te
Sentir o sabor,
O gosto da tua pele,
Da tua carne...
Meus dentes precisavam conhecer teu corpo
Acariciar...
Conhecer
Explorar...
Lentamente...
Cada pedacinho do teu corpo...
Queria passar a língua em cada bocado do teu corpo
Deixando o rasto quente de saliva a misturar-se...
Com os nossos gemidos e sussurros...
Desejei o roçar dos corpos,
Sentir cada caricia..
cada gesto....
Num profundo toque
Sem limites,
Sem preconceitos...
Apenas desvendar
Conquistar...
afundar-me em ti...
até quebrarmos todos os limites,
Ser um só corpo
Uma só alma..."

terça-feira, dezembro 21, 2010

Sinto-me enjaulado, preso!

"Sinto-me enjaulado, preso!
Preso nas garras de um mundo obsoleto, ultrajado e inútil.
Caminho por ruas que se parecem com corredores
Onde as casas não passam de celas
Que me ferem os movimentos.
O barulho da cidade assusta-me!
Olho para os becos e vejo emergir
Corpos que lutam entre si.
Vejo o ódio desenhado nas máscaras de cada pessoa que passa
Vejo a ambição e o desespero que lhes queima o rosto.
Todos se preocupam com o mais importante:
ÓDIO, DOR, DESPREZO, MORTE, DESTRUIÇÃO!
Ninguém conhece ninguém e estão condicionados
A números a que chamam tempo, tempo de serem alguém.
São todos artificiais, não conhecem
A AMIZADE, o AMOR, a ESPERANÇA.
Tudo foi esquecido...
Sinto frio, a indiferença gela-me o coração.

Duas figuras brancas destacam-se da multidão.
Sei quem são, mas pouca importância lhes dou
Sei que para onde me levam tudo é diferente.
Sim, fui considerado LOUCO!"

Cobarde

Meu querer é cobarde
Foge do que sinto
Como quem foge do que arde
E quanto mais quero
Mais arde, mais queima.

Encontro-me alienado
Talvez morto, talvez descansado...

Escreve-me

Escreve-me!
Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto daçucenas!
Escreve-me!
Há tanto, há tanto tempo
Que te não vejo, amor! Meu coração
Morreu já, e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!"
Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então... brandas... serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...


Florbela Espanca

quarta-feira, novembro 24, 2010

Eu cantarei de amor tão docemente

Eu cantarei de amor tão docemente,
Por uns termos em si tão concertados,
Que dois mil acidentes namorados
Faça sentir ao peito que não sente.

Farei que amor a todos avivente,
Pintando mil segredos delicados,
Brandas iras, suspiros magoados,
Temerosa ousadia e pena ausente.

Também, Senhora, do desprezo honesto
De vossa vista branda e rigorosa,
Contentar-me-ei dizendo a menor parte.

Porém, pera cantar de vosso gesto
A composição alta e milagrosa
Aqui falta saber, engenho e arte.

Luís de Camões

quinta-feira, março 11, 2010

Cavalo à Solta

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura


Ary dos Santos

sexta-feira, fevereiro 05, 2010

Auto-retrato


Espáduas brancas palpitantes:
asas no exilio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.


Natália Correia

terça-feira, janeiro 06, 2009

No entupir do sangue pela noite
Ofereço-me em sacrifício ao medo.
Sou presa fácil, caça da vida!!
Demência dócil que me engole...
Celebro-me em arrepios de morte
Encanto-me em sonos mórbidos
Enleio-me em ressacas de embalar.

Assassino todos os enredos banais
Abraço a chegada quando a fuga já é partida...

Sulcos da sede

É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade

domingo, janeiro 04, 2009

Estranheza


Mãe
que distancia é esta
que vai de mim a ti
distancia crescida
se um dia fomos
uma quase - única forma
uma quase única vida
Mãe
estranho sentir o meu
que te vejo estrangeira
e a palavra
mais não é que limite…
Mãe
que desconforto é este
se teus braços um dia foram
repouso, refúgio
e hoje
apenas braços…os teus
abraço que recuso
Mãe
que nome tem o que sinto
espada que pra ti volto
muralha que eu mesmo ergo
por já não saber dizer-me…
Mãe
razão desta dor que nutro
taça do meu amargo néctar,
oferenda do nosso grito mútuo.

Angela Santos

quarta-feira, dezembro 17, 2008

De tanto olhar o sol

De tanto olhar o sol,
queimei os olhos,
De tanto amar a vida enlouqueci.
Agora sou no mundo esta negrura.
À procura
Da luz e do juízo que perdi.

Miguel Torga

Motivo da Rosa

Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.

Rosas verá, só de cinzas franzida,
mortas, intactas pelo teu jardim.

Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.

E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.


Cecília Meireles

Nudez

Desfaço o tempo até onde permito
Rasgo todos os lugares que lembro
Oculto vozes, depuro instantes
Desenleio ferozmente
Todos os caminhos até mim.

Nudez d'alma
Insónia cúmplice dos meus medos...

quinta-feira, dezembro 04, 2008

Sigo a tua boca


Sigo a tua boca
Na procura do sal
Da maré que oferece vida
E na alma reencontro
A nudez melódica
De inesperados prantos
De inconfessos desejos
Que o tempo não afastou.

Na penumbra onde o silêncio és tu
Eu sou a névoa solitária que emana de ti...

"Na singular razão de tudo o que faço
Nada importa o que eu sou.
Memória curta, finada em pensamento.
Esquecida!
Pouco importa o que seja
Ou que deixe de o ser.
Morro em esquecimento
Entre um instante e um momento.
Viver não é lembrar
viver é ser.

Viver sem lembranças
Viver na morte do pensamento..."

quarta-feira, novembro 12, 2008

Acalmar o coração


Estou aqui fora, na rua
Não há mais ninguém para conhecer
As coisas eram tão doces
Há muito que não me agradam
Mas eu continuo a tentar
Não paro de tentar
Tudo o que quero
É silêncio no coração
Para que possa começar
Encontrar o meu caminho
Sair da escuridão
E entrar no teu coração
Tenho mais do que consigo comer
Uma vida que não pode ser melhor
Ainda assim, sinto este calor
Estou a sentir-me incompleto
O que estou a comprar?
Minha alma está a chorar
Onde está o amor?
Como é o mundo onde vivemos?
Onde está o amor?
Nós precisamos de continuar a dar
Onde está o amor?
O que aconteceu com o perdão?
Alguém?

Lenny Kravitz

segunda-feira, novembro 10, 2008

Quero apenas


Quero apenas cinco coisas..
Primeiro é o amor sem fim
A segunda é ver o outono
A terceira é o grave inverno
Em quarto lugar o verão
A quinta coisa são teus olhos
Não quero dormir sem teus olhos.
Não quero ser... sem que me olhes.
Abro mão da primavera para que continues me olhando.

Pablo Neruda

quarta-feira, outubro 29, 2008

Avião de Papel


Derramando tinta em todas as páginas,
Tentando soletrar o teu nome
Então, vou dobrá-lo e atirá-lo para bem longe
Avião de Papel
Está acostumado a voar sete mares para ti
Porque não deixares o meu quarto
Mas aguarda as mãos de alguém
O homem do lixo
Tenho a dizer mmm mmm mmm
Então, abres para o leres, alto, para todos os teus amigos
Entre a multidão vais quebrar um coração e um coração irás curar
Andas em casa cansada do trabalho
A carta cai da tua mão
Ele chega de longe, só para agarrares o céu
Caminhando através do o vento
Tenho a dizer mmm mmm mmm
Derramando tinta em toda a terra
Tentando soletrar o teu nome
Subir e descer lá vai
Avião de Papel
Não percorrendo pelos sete mares para ti
Mas o seu caminho, está de encontro ao teu
Atravessa até às tuas mãos
Então para alguém
Para te encontrar, princesa
Tenho a dizer mmm

Angus and Julia Stone

Cavalos e carroças


A lua tem bloqueado o sol.
Tenho visto que não há dias.
Anda pela rua como as chaminés queimar.
Vou beber umas cervejas para achar o meu caminho
O meu caminho de casa
As ruas foram feitas para os cavalos e carroças
eles falam da mina por trás, antes de fechar portas.
Ficavam na chuva para sentir a sua parte
Este labirinto que se estende em paredes de betão
O meu caminho de casa
Desconfiado, um cadáver sem rosto,
a tela acende um oculto em mim.
Esta escuridão não pode encontrar o seu lugar,
através da noite vamos nadar.
O meu caminho de casa

Angus and Julia Stone

terça-feira, outubro 28, 2008

Sanguessuga

Isso faz-te orgulhosa?
Para falar do mundo
dentro de um saco de papel manchado de:
"Eu estou bem, tu não estás bem"
Sim, tu também podias ser um trapo
Eu estou em cima da minha cabeça, preciso levantar-me
Isso é fácil, levantar-te quando estás sobre as nossas costas
Nada será o suficiente para ti?
Sê tu mesma
Abraça a tua água se puderes
O caminho acabou.
Divertiste-te?
O caminho acabou.
Aproveitaste bem?
O caminho acabou.
Divertiste-te?
O caminho acabou.
Aproveitaste bem?
Não no meu tempo
Não é justo mencionar,
Mas isso apavora a multidão
Tua ficção, álibi de plástico
Então pega noutro alvo, rouba outra linha
Tu já encontraste uma sanguessuga que era boa a dizer adeus?
Quando estavas para baixo
Sempre te levantei
Porque nunca lembrei de como tudo era bom?
Eu estou a chutar-me a mim mesmo, que fui cuspido
Então foda-se
E foda-se este meu coração que está a sangrar
Quando tu estavas para baixo
Sempre te levantei
Porque eu nunca lembrei... de como tudo era bom?
Eu estou a chutar-me a mim mesmo, que fui cuspido
Então foda-se
E foda-se este meu coração que está a sangrar

ACABOU.


Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe".
O vento da noite gira no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.

Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.

A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.

Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.

Pablo Neruda

Sinto a tua falta


Ver-te quando acordo

É um presente que não pensava que pudesse ser real

Saber que tu sentes o mesmo que eu sinto

É o triplo de um sonho utópico

Tu fazes algo comigo,

Que eu não consigo explicar

Então, eu seria inconveniente se dissesse que

Sinto a tua falta

Eu vejo a tua foto

Sinto o teu cheiro na almofada vazia ao lado

E tu só andas longe há dez dias

Mas eu já me estou a acabar

Sei que te vou ver de novo

Mais cedo ou mais tarde

Contudo preciso que tu saibas,

Que me importo

E, sinto tua falta

Incubus

quarta-feira, outubro 22, 2008

Oculto fogo


Hoje deitei-me junto a uma jovem pura
como se na margem de um oceano branco,
como se no centro de uma ardente estrela
de lento espaço.
Do seu olhar largamente verde
a luz caía como uma água seca,
em transparentes e profundos círculos
de fresca força.
Seu peito como um fogo de duas chamas
ardía em duas regiões levantado,
e num duplo rio chegava a seus pés,
grandes e claros.
Um clima de ouro madrugava apenas
as diurnas longitudes do seu corpo
enchendo-o de frutas extendidas
e oculto fogo.

Pablo Neruda

segunda-feira, outubro 20, 2008

Preto e Ouro


Os peixes nadam
Fora dos oceanos
Cresceram-lhe pés
e começaram andar
e os macacos escalaram para baixo
das árvores
E cresceram alto
E começaram falar
As estrelas
Caíram do céu
E os meus rasgos
Rolaram no oceano
Agora que eu estou a olhar
Para uma razão, porque
Tu ajustas mesmo o meu mundo
No movimento
Se tu não estiveres
Realmente aqui
Então as estrelas
Não importam, mesmo
Agora que encho
Ao alto com o medo
Mas é todo
Apenas um grupo importa
Se tu não estiveres
Realmente aqui
Então não vou querer
Ser qualquer um
Eu quero estar ao teu lado
Preto e ouro
Preto e ouro
Preto e ouro
Eu olhei para cima
No céu cinzento
E vi mil olhos
Que olho, fixamente para trás
E em toda a volta
Destas balizas douradas
Eu não vi nada além de preto
Eu sinto uma maneira de algo
Além deles
Eu não vejo
O que eu posso sentir
Se a visão
For a única validação
Então a maioria da minha vida
Não é real
Se tu não estiveres
Realmente aqui
Então as estrelas
Não importam mesmo
Agora encho
Ao alto com o medo
Mas é todo
Apenas um grupo importa
Se tu não estiveres
Realmente aqui
Então não vou querer
Ser qualquer um
Eu quero estar ao teu lado
Preto e ouro
Preto e ouro
Preto e ouro

Sam Sparro

Adeus, prazer em conhecer-te


Melhor do que ver Gellar dobrar colheres prateadas
Melhor do que testemunhar um nascimento em sangue
É ela que vê sorrisos de cima e canta
A perspectiva investiga teus olhos pesados e lhe dá asas
Eu não me tenho sentido como hoje
Há muito tempo, é dificil especificar
Começo a notar o quanto isso se parece,
Com um limbo ao amanhecer,
alfinetes e agulhas, prazer em conhecer-te.
Adeus, prazer em conhecer-te
Adeus, prazer em conhecer-te,
Mais profundo do que a profundidade que Costeau já atingiu
E mais alto que as alturas do que nós frequentemente pensamos conhecer
Abençoada seja ela, que vê claramente a madeira das árvores
Obter um olho de pássaro é como transformar um temporal numa brisa
Eu não me tenho sentido como hoje
Há muito tempo, é difícil de especificar
Começo a notar o quanto isso se parece
Com um limbo ao amanhecer,
alfinetes e agulhas, prazer em conhecer-te
Adeus, prazer em conhecer-te
Adeus, prazer em conhecer-te
Então...
É possível que tenhas estado lá o tempo todo?


Incubus

sexta-feira, outubro 10, 2008

Aviso


Observa os teus olhos, miúda,

vai além de palavras

Contabiliza as tuas benções,

seduz um estranho

O que há de tão errado em ser feliz?

Sucesso para aqueles que vêem através da doença...

Outra vez e outra e outra e outra e...

Acordaste de manhã

Soubeste que tua vida tinha passado para trás

Dei-te um aviso

Nunca deixes a vida passar-te para trás

Eu sugiro que nós aprendamos a amar

nós, antes que isso se torne ilegal

Quando vamos aprender?

Quando vamos mudar?

Apenas, em tempo de ver tudo em ruínas

Aqueles que sobraram irão facturar milhões

Escrevendo livros sobre como tudo deveria ter sido

Acordaste de manhã

Soubeste que tua vida tinha passado para trás

Dei-te um aviso

Nunca deixes a vida passar-te para trás

Boiando nessa banheira cósmica

Nós somos como sapos distraídos

Com a água começando a ferver

Ninguém reage, todos nós boiamos com a cara para baixo

Acordaste de manhã

Soubeste que tua vida a tinha passado para trás

Dei-te um aviso

Nunca deixes a vida passar-te para trás


Incubus

terça-feira, setembro 16, 2008

Talvez


Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos...
E por amor
Serei... Serás...Seremos...

Pablo Neruda

quinta-feira, setembro 04, 2008

Obsessão do Mar Oceano

Vou andando feliz pelas ruas sem nome...
Que vento bom sopra do Mar Oceano!
Meu amor eu nem sei como se chama,
Nem sei se é muito longe o Mar Oceano...
Mas há vasos cobertos de conchinhas
Sobre as mesas... e moças na janelas
Com brincos e pulseiras de coral...
Búzios calçando portas... caravelas
Sonhando imóveis sobre velhos pianos...
Nisto,Na vitrina do bric o teu sorriso, Antínous,
E eu me lembrei do pobre imperador Adriano,
De su'alma perdida e vaga na neblina...
Mas como sopra o vento sobre o Mar Oceano!
Se eu morresse amanhã, só deixaria, só,
Uma caixa de música
Uma bússola
Um mapa figurado
Uns poemas cheios de beleza única
De estarem inconclusos...
Mas como sopra o vento nestas ruas de outono!
E eu nem sei, eu nem sei como te chamas...
Mas nos encontramos sobre o Mar Oceano,
Quando eu também já não tiver mais nome.
Mário Quintana